APESAR da CENSURA, povo Russo continua usando TELEGRAM

O que você faria se o seu governo decidisse, da noite para o dia, que você não tem mais o direito de saber a verdade? Na Rússia de Putin, a resposta para milhões de pessoas não foi a obediência, mas a insurgência digital. Enquanto o estado tenta erguer uma nova Cortina de Ferro, uma guerra silenciosa está sendo travada dentro dos smartphones russos. E o Leviatã está perdendo.

Não é de hoje que a guerra da Ucrânia tem causado impactos negativos tanto ao povo ucraniano quanto ao povo russo. Porém o que surpreende no ramo da informação é que mesmo com toda a censura do leviatã russo, milhões de cidadãos russos continuam a utilizar cada vez mais o Telegram durante o dia-a-dia para os mais diversos propósitos, desde comunicação diária, até notícias importantes sobre a guerra e o governo que, de outra forma, não seriam possíveis de se acessar devido à censura constante por parte do governo de Vladimir Putin.

Para quem não conhece, o Telegram é um aplicativo de mensagens instantâneas focado na velocidade, alto grau de segurança e capacidade de compartilhamento elevada. Ao contrário do Whatsapp, que mesmo alegando ter criptografia de ponta-a-ponta constantemente vaza dados de usuários, o Telegram se provou confiável e resistente ao teste do tempo, se tornando um dos maiores meios de comunicação, não apenas entre a direita e libertário, mas também entre o público em geral, atingindo mais de um bilhão de usuários mensais no começo deste ano.

Apesar de não ser o único aplicativo de mensagens com certo foco na privacidade, já que existem diversos outros como o Confide e o Signal, o Telegram continua sendo o mais "queridinho" e popular quando se fala na busca por meios de comunicação descentralizada e distribuída. Por causa disso o Telegram representa uma pedra muito incômoda no sapato do estado quando o assunto é controle de informações, não só na Rússia como em qualquer país autoritário. Isso fez com que Rússia, China, Irã e diversos outros estados fizessem políticas para banir o Telegram de seu território digital.

O que mais surpreende, porém, não é necessariamente o banimento, que inclusive já era esperado por parte destes governos, mas sim o que diz o próprio Telegram. Segundo dados informados pelo dono da empresa, cerca de 65 milhões de Russos utilizam o Telegram através de VPN diariamente, burlando completamente qualquer tentativa de bloqueio imposta pelo parasita estatal Russo. O padrão é o mesmo em países como Irã ou China, onde milhões lutam diariamente de forma silenciosa contra a censura.

Embora a palavra "censura" exista desde a Roma antiga, práticas estatais de controle de informação já existiam desde a época do Egito Antigo. Praticada pelos antigos Faraós, o termo "damnatio memoriae" ou "condenação da memória" era constantemente usado pelos Faraós contra inimigos políticos, rivais e opositores do regime, onde nomes de hereges e referências aos mesmos, ou a governantes passados considerados antiquados, eram deliberadamente removidos de documentos e registros históricos, com o mais famoso caso sendo a tentativa de apagar os registros da existência do Faraó Aquenáton e sua tentativa de introdução ao culto de uma única divindade no Egito.

Agora você deve estar se perguntando: Mas por que um governo precisaria proibir informações de serem veiculadas livremente à seu próprio povo? Pois bem, é aqui que está o grande problema para qualquer governo, em especial os gigantes como China ou Rússia. Em um mundo onde a informação literalmente derruba governos, como no caso do Nepal, ou permite à milhões saírem da pobreza, a informação se torna uma ferramenta mais poderosa que exércitos ou políticas de censura. E é esta mesma troca livre de informação que permite à população Russa não apenas compartilhar informações confidenciais sobre o governo ou sobre a guerra, mas também praticar o livre comércio e até mesmo emplacar pesquisas científicas. E um povo que começa a praticar comércio e inovação é um perigo para o estado, pois cidadãos independentes logo vão perceber que o estado é um obstáculo, e não uma ponte.

O grande problema para Putin, porém, é que o buraco é muito mais embaixo. Enquanto pesquisas recentes do governo tentam mascarar um apoio artificial de mais de 80% à agressão de Putin contra os ucranianos, pesquisas independentes mostram uma realidade completamente oposta: quando perguntados sobre a situação da guerra da Ucrânia, mais de 75% dos Russos preferem o selamento de um acordo de paz com o governo Ucraniano, indicando um paradoxo entre os dados oficiais apresentados pelo governo Russo e as fontes alternativas.

Para piorar a situação, o governo Russo anunciou recentemente um plano com o objetivo de isolar sua internet do resto do mundo. Whatsapp, Instagram, Facebook e Telegram já foram removidos de cena por parte do governo, que ainda tem a meta de cortar completamente todos os vínculos com redes sociais e aplicativos ocidentais nos próximos anos. Ao que tudo indica, a ideia do governo Russo é, ao longo do tempo, copiar o famoso "Grande Firewall da China", isolando aos poucos os Russos do resquício de liberdade que ainda lhes resta e minando o espaço para a livre proliferação de ideias.

O plano de Putin é claro: promover uma máquina de guerra infalível — cuja infalibilidade só existe em sua mente — combinada ao complexo industrial-militar russo — que atualmente opera com armamento soviético obsoleto — e a máquina de propaganda e censura onde nada além da mentira transvestida de verdade absoluta do governo pode ser permitida, transformando a Rússia em uma ilha de ignorância digital.

Porém, no meio de todo este turbilhão há um pequeno detalhe constantemente ignorado por burocratas velhos como Putin e seus comparsas: desde o século 20 a tecnologia vem avançando cada vez mais rápido, atualmente sendo muito mais rápida que a caneta do tirano e do autocrata. Cada nova tecnologia, desde a computação em nuvem até a blockchain, permite cada vez mais a descentralização de informações e instituições.

Tais avanços geram descobertas em campos tecnológicos onde antes não havia outra alternativa, o que leva a mais e mais descobertas em um processo de crescimento exponencial, processo este, visto desde o início das grandes descobertas científicas. A grande diferença de lá para cá é que os avanços no começo eram mais lentos, a taxa de disseminação de informação era significativamente menor, e como resultado a capacidade de controle estatal era maior.

Por exemplo, em comparação ao que temos hoje, no século 19 a comunicação era muito mais lenta e demoravam-se semanas ou até mesmo meses para levá-la de um ponto a outro em um país ou outra parte do mundo. Os únicos meios de comunicação eram o jornal, e mais tarde o telégrafo. Em contraste, no século 21 a informação chega de um extremo ao outro do mundo em questão de segundos.

Portanto, o que antes era relativamente simples para o estado realizar, atualmente é uma dor de cabeça constante para autocratas e ditadores ao redor do mundo inteiro, pois não importa quantos firewalls ou bloqueadores de internet existirem, a liberdade de expressão e a livre iniciativa do indivíduo sempre encontram uma forma de se rebelar e contornar as amarras do sistema.

Ao contrário do que parece, tal evolução não se limita apenas à mensagens de texto ou vídeochamadas. O que está em jogo é uma vasta gama de tecnologias que, atualmente, permitem ao indivíduo lutar de igual para igual contra o Leviatã estatal. De nada adianta os governos da China, Rússia e Irã fazerem o possível e o impossível para conterem a disseminação da informação no meio de suas populações, se cada indivíduo pode facilmente acessar as mais avançadas tecnologias e ter acesso às tão temidas verdades que os governos tanto se esforçam para encobrir.

Pode não parecer que estamos vendo um progresso na liberdade de expressão e comunicação, mas desde a década passada o poder de estados inteiros está sendo minado, pouco a pouco, desde as revoluções da Geração Z até os recentes protestos em massa na Rússia. O que está acontecendo diante de nossos olhos, dia após dia, não é mero acaso, mas sim a informação descentralizada e distribuída lentamente implodindo os estados como conhecemos hoje e levando-nos aos poucos a um novo período na história humana, a era da liberdade.

Referências:

https://www.demandsage.com/telegram-statistics/
https://pt.euronews.com/next/2024/08/28/telegram-quais-sao-os-paises-que-o-proibiram-ou-estao-a-restringi-lo-e-porque
https://exame.com/economia/uma-breve-historia-da-censura/
https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/pesquisa-indica-79-russos-apoiaria-decisao-putin-selar-paz-ucrania/
https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/04/01/russia-caminha-para-isolar-sua-internet-do-resto-do-mundo.ghtml
https://ihu.unisinos.br/664325-russia-caminha-para-isolar-sua-internet-do-resto-do-mundo